Press "Enter" to skip to content

Ativos encalhados e o petróleo do pré-sal

 Artigo de Guilherme Papaterra e Luís Dutra

Rio, 17/12/2018 – O arranque para uma economia de baixo carbono está no radar de empresas, bancos e seguradoras. Três quartos do carvão, metade do gás e um terço do óleo, guardados nas jazidas conhecidas, não serão aproveitados até 2050, se a intenção for conter o aquecimento global em até 2º C., segundo artigo de Christophe McGlade e Paul Ekins publicado na “Nature” em janeiro de 2015, que tanta reação provocou. No mesmo ano, o Banco Central da Inglaterra chamou a atenção da praça financeira de Londres sobre o risco a que estavam submetidos os investimentos em ativos produtores e distribuidores de energia.

Embora a velocidade seja uma incógnita, a presente mudança é global, de natureza estrutural e a transição já está em curso, com as bases da nova matriz energética postas. Sendo assim, mais cedo ou mais tarde, a questão das jazidas deixadas de lado, sem lavra, será colocada aos produtores e aos países detentores destes recursos.

Investidores com aplicações de longo prazo, seguradoras, fundos de pensão e de aposentadoria, além dos grandes bancos, sempre se preocuparam com depreciações prematuras, perdas inesperadas, desvalorizações imprevistas, ativos convertidos em passivo abrupta e imponderavelmente. O termo inglês “stranded assets”, mal traduzido por nós como “ativos encalhados”, foi cunhado para assimilar o risco de se tornarem irrecuperáveis, ou afundados, em razão da desregulamentação e de modificações supervenientes verificadas durante a década de 1980 nos setores de infraestrutura com as privatizações.

A indústria nuclear conhece bem o problema. Após dezembro de 2015 e a assinatura do acordo de Paris, no qual os participantes concordaram em acelerar a transição energética, não foram poucos os alertas e pelo menos duas “supermajors”, a Shell e a BP, elaboraram relatórios especiais endereçados aos acionistas (disponíveis nas respectivas páginas eletrônicas). Ambas explicam como planejam manter a criação de valor, diversificar as fontes de receita e, assim, prevenir-se contra as perdas decorrentes de eventuais reservas “encalhadas”.

A despeito do grau de incerteza, considerando uma taxa de declínio dos campos de 10% ao ano e o crescimento (vegetativo) da demanda até por volta de 2040 em 0,5% ao ano, estariam asseguradas as condições de sobrevivência dos produtores não situados no Oriente Médio e justificada a continuidade da busca por novas jazidas em substituição àquelas que se esgotam. Justamente na região que abriga as maiores e melhores acumulações do mundo, a ausência de qualquer perspectiva de paz impõe às grandes nações importadoras a continuação do esforço exploratório.

A extrema volatilidade dos preços do barril, a vulnerabilidade dos países exportadores, a fragilidade do acordo atual entre árabes e russos (para regular a produção) e o fato de não existir capacidade ociosa, que compense uma súbita ruptura da oferta, reforçarão o apetite das petroleiras ainda por algum tempo, enquanto mantém a tensão no mercado.

A matriz energética do país permite o pleno aproveitamento do pré-sal sem comprometer metas de redução das emissões

O interesse pelas licitações brasileiras se insere neste contexto. As condições particulares (com descobertas de acumulações de grande porte e elevadíssima produtividade em ambiente desafiador) reservam a oportunidade somente às maiores empresas. Elas atuam em consórcio sempre, para mitigar riscos e partilhar a despesa de capital. Trata-se da mais nova província produtora no mundo. Fora do Oriente Médio e da África do Norte e juntamente com a Margem Equatorial, não há igual potencial geológico.

As províncias concorrentes contam com uma formação de custo inteiramente distinta (o não convencional americano e argentino, além das areias betuminosas canadenses) enquanto, na Venezuela, política e tecnologia prejudicam o aproveitamento do petróleo pesado. Essas últimas fronteiras não interessam às grandes petroleiras ocidentais. Seja como for, tendo em vista o horizonte de planejamento dos projetos, talvez seja a última oportunidade de lucrar com a extração de óleos situados, coincidência, nas Américas.

Para os países produtores, motivos não faltam para se debruçarem sobre o tema. Campos de O & G operam por décadas. Em terra, o maior campo brasileiro em volume, Carmópolis, produz desde 1963 e, este ano, em média, dele, continuavam a serem extraídos cerca de 10 mil barris por dia de óleo cru de boa qualidade. No pré-sal, as jazidas guardam volumes extraordinários: nas áreas de Marlim e Parque das Baleias, na bacia de Campos, existem pelo menos um bilhão de barris em cada uma delas; na bacia de Santos, no campo de Mero, são 5 bilhões e outros 8 bilhões em Lula.

As áreas do contrato da cessão onerosa (atualmente em discussão no Congresso) podem envolver 15 bilhões de barris. Nas atuais condições de preço e tecnologia, contam-se 35 a 40 bilhões de barris recuperáveis descobertos. Isto sem mencionar o volume do gás natural associado. Além disso, a fronteira aberta em 2007 mal completou 10 anos, por isso, estima-se que ainda guarde o mesmo volume a ser descoberto.

Tardiamente revelada, a abundância é duplamente desafiadora para o novo governo. Evitar a doença holandesa (e consequente desindustrialização), ao mesmo tempo em que administra o arranque de forma a se beneficiar dos próximos 20 a 30 anos de crescimento da procura por petróleo. A posição brasileira é única em razão de uma matriz calcada na hidreletricidade, na biomassa e, na qual o carvão tem presença residual, o que permite o pleno aproveitamento das descobertas, sem comprometer as metas acordadas em Paris para a redução de emissões.

Daqui a 50 anos, tendo como alicerce os imensos depósitos de gás natural e a diversidade das fontes renováveis, a ponte para uma economia de baixo carbono tem tudo para estar solidamente ancorada. Até lá, porém, paradoxo maior será que, após um século de busca incessante o país acabe deixando de lado o petróleo do pré-sal, sem garantir os dividendos à sociedade destes recursos; ou simplesmente o exporte, sem agregar valor algum, por falta de tempo e planejamento.

Publicado no Valor Econômico

Be First to Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Guiaoffshore 16 anos com você